quinta-feira, 30 de julho de 2009

Inha, inha...


Mote: escrever um texto que inclua as palavras: alface, chatice, aspirinas, inversão, contenda.

Uma vontadinha andava aflitinha por comer uma saladinha. Alface, pensou, alface para uma alfacinha seria a melhor opçãozinha. Umas folhinhas de alface numa tigelinha, um fiozinho de um bom azeitinho e em poucos minutinhos faria um bom almocinho. Que chatice, não ter ali à mão a dita verdurinha. Não fosse a contenda, uma briguinha sem importância, que mantinha há anos com o dono da lojinha ao fundo da sua casinha, e a esta hora já estaria a caminho.
Não faz mal, resolveu a nossa vontadinha. Se o fulaninho me tratar mal, passo na farmácia do Sr. Agostinho e compro um remediozinho, quem sabe umas aspirinas ou um analgesicozinho.
Pegou no carrinho, fez inversão no caminho e foi à vidinha, cuidar da sua fominha.

Mote de: Nuno

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segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um salto até ao céu


Mote: escrever um texto iniciado por: "Naquele dia, saltei por cima da minha sombra."

Naquele dia, saltei por cima da minha sombra. Foi um dia feliz. Calcei os meus sapatos voadores e galguei por cima de árvores e de pássaros, de aviões e arranha-céus que pareciam tocar a eternidade.
Continuei para lá das nuvens, estendi os braços e senti as gotas da chuva por entre os dedos.
Sem parar, alcancei os raios do sol e vi aquecer em mim a coragem de voar cada vez mais alto.
Enfrentei obstáculos cruéis, mas fui mais forte e nada me deteve.
Não quis ouvir os que me agouravam uma queda fatal e fui mais além, em busca do meu lugar, ao lugar onde sempre vamos quando procuramos um sonho.
Nesse dia, fui maior do que as maiores montanhas que encontrei no mundo. A minha sombra perseguia-me, acompanhava-me nos meus saltos de gigante, mas aquela era uma corrida que ela não poderia vencer, porque me animava uma grande voragem, eu queria chegar mais longe do que a minha própria vontade.
Nesse dia, saltei por cima da minha sombra e cheguei ao céu.

Mote de: Graça

terça-feira, 7 de julho de 2009

E tu? Onde o encontraste?


Mote: escrever um texto iniciado por: "Acho que ele foi encontrado no caixote do lixo..."
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Acho que ele foi encontrado no caixote do lixo. Não que isso fizesse grande diferença. Para mim era precioso. O importante era como tinha vindo até mim. Era exactamente como eu o imaginava. Como eu sempre o tinha fantasiado, desde que era apenas uma miúda e ele povoava os meus sonhos mais inconfessáveis. Esta noite ele seria meu. Sabia que no momento em que ele tocasse o meu dedo, o menos importante seria o lugar de onde ele tinha vindo. Esta noite o brilho daquele anel de noivado faria iluminar o meu coração.

Mote de: Nuno
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sexta-feira, 3 de julho de 2009

Qual é a tua cor hoje? (II)


Mote - Um texto iniciado por: "Quando ela pintou o cabelo de verde..."

Quando ela pintou o cabelo de verde, a sogra pensou que desta vez é que ela tinha enlouquecido! Aquilo já era de mais! É certo que naquele cabelo já tinha visto praticamente todas as cores que alguma vez julgara poder ver numa cabeça, aliás até já diversos tons esverdeados tinham acampado por ali mais vezes do que considerava aceitável, mas desta vez…

Estava sobejamente habituada às extravagâncias da rapariga e não gostava de recordar a única vez que a tinha acompanhado às compras. Ainda hoje se perguntava onde tinha ela descoberto aquela loja e arrepiava-se com a familiaridade com que a viu tratar as funcionárias e os restantes frequentadores do sítio. Era habitual ver-lhe nos pés umas coisas a que só uma alma benevolente chamaria calçado e as unhas já tinham passado por todos os processos de transformação e coloração possíveis. Tons claros e escuros, suaves ou garridos, tudo era opção para os artefactos que cobriam aquele corpo (quase sempre muito pouco…) desde que o resultado fosse notoriamente bizarro. Até sobre a depilação nas zonas íntimas já tinha ouvido umas histórias, mas nunca pensou que a rapariga tivesse o descaramento de colorir o cabelo de verde-alface.

Nem queria pensar no trabalho ia ter esta noite para esconder a descarada dos olhos do marido. Nem era tanto por saber que ele nunca morrera de amores pela nora, mas ainda estava bem viva na memória de todos a histeria dele quando, na semana passada, o filho, sempre dado a partidas, tinha levado a cabo a sua mais recente brincadeira ajudado por aquela doida: de noite, enquanto a casa dormia, dedicaram-se ambos a pintar, exactamente daquela cor, as cabeças de todos quantos nela se encontravam. Nem a avó havia escapado!

Mote de: Graça
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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Qual é a tua cor hoje? (I)


Mote - um texto iniciado por: "Quando ela pintou o cabelo de verde..."

Quando ela pintou o cabelo de verde, sentiu-se logo mais confiante. Há anos que era assim. O cabelo reflectia-lhe o estado de espírito. Quando se sentia eufórica, era frequente vê-la com a cabeça vermelha. Ou quando estava apaixonada. Ou quando se sentia zangada e queria mostrar toda a sua agressividade ao mundo. Quando precisava de relaxar, escolhia um azul céu. Se estava triste, mesmo que sem razão, preferia o preto, ou por vezes um cinzento. Hoje, depois da tragédia que lhe tinha acontecido e com o ano novo à porta, sabia que o verde seria a única cor que a poderia a ajudar a encontrar de novo a esperança.

Só uma vez pintou o cabelo de amarelo. Por nenhuma razão em especial. Apenas porque lhe apeteceu.

Mote de: Graça
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Uma nova fase



Terminado o curso, um novo desafio. Pomposamente chamado Clube de Escrita.

Mensalmente, em torno de uma mesa, sete almas juntam-se para partilhar o desfecho dos seus esforços. Como dizia o L. há dias, se mais não se aproveitar, há sempre boa gastronomia…

Os motes são lançados previamente, os resultados seguem nos próximos posts.

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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Correntes quebradas


Em escrita automática (processo de escrita contínua, sem interrupções, emendas ou retrocessos), um texto iniciado por: "A corrente do relógio partiu-se".

A corrente do relógio partiu-se. Ele sabia que se tratava de um sinal. Olhou em volta. Não encontrou o tempo. Decidiu avançar assim mesmo. Sabia que não havia volta. Algures haveria de encontrar outro relógio. O pior era o tempo, o tempo que não voltava. Sabia que o tempo não avançava, não envelhecia, quem envelhecia era ele. O tempo é sempre igual, as estações sucedem-se, o Outono precede o Inverno e outro tanto acontece com a Primavera e o Verão. Quem envelhecia era ele, esmagado por aquele tempo, por aquele relógio e agora até por aquela corrente que se partira. Fugia-lhe o tempo.

Seguiu em frente. Em algum ponto do caminho descobriria uma relojoaria, compraria outro relógio, compraria outra corrente, talvez encontrasse outro eu, talvez pudesse ser outra pessoa, com outro relógio no bolso se encontrasse outra corrente, ou com outro relógio no pulso, se isso não acontecesse. Mas sabia que não podia comprar o tempo.
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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Nas minhas mãos


Em escrita automática (processo de escrita contínua, sem interrupções, emendas ou retrocessos), um texto iniciado por: “Depois do que sucedeu, lavei meticulosamente as mãos”.

Depois do que sucedeu, lavei meticulosamente as mãos. Não podia mais com aquela sujidade. Não sabia de onde me vinha aquele nojo. Mas era nojo. Estava lá tudo. Enquanto lavava as mãos, vinham-me à memória os detalhes. A faca, o momento de cortar o pescoço, o sangue. O pior de tudo era o sangue, aqueles esguichos na minha direcção. Nem o cuidado de me ter prevenido com um enorme avental me libertou daquele nojo.
Agora, nada, nada, nem as súplicas da minha avó por um arroz de cabidela, me convenceria a voltar a matar uma galinha.
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domingo, 3 de maio de 2009

Feitiçarias


A actividade teve início com a distribuição de uma tangerina e uma bolacha pelo grupo. Fomos convidados a saboreá-los com o objectivo de escrever um texto baseado na seguinte situação:
Um casal dirige-se ao consultório de uma vidente e pede ajuda para resolver um problema. Ela, interrompendo-os, diz: “Não, não me contem. Eu vou descobrir o vosso problema e resolvê-lo. Para isso, só preciso de comer uma bolacha desta caixa e também uma tangerina. A bolacha será de um de vós e a tangerina o outro, e assim, eu vou descobrir o vosso problema”

Impressões sobre os “petiscos”:
Tangerina: Ligeiramente ácida a princípio, revelou-se afinal muito doce. Comia-se e apetecia mais. No final, obrigou a uma saída da sala de aula, para lavar as mãos antes de começar a escrever.
Bolacha: com uma deliciosa cobertura de chocolate, o seu interior era… uma desilusão.

Texto:
- Não, não falem, não respirem! Dêem-me tempo. Deixem-me provar esta bolacha, deixem-me provar esta tangerina.
Sim, já percebi qual é o vosso problema e já sei como resolvê-lo.
Paulina, tu és esta tangerina. Estás toda aqui. Estás um pouco escondida e, por isso, é preciso descascar-te. A princípio pareces ser um pouco ácida, mas depois… quando começamos a saborear-te, vemos que és muito doce e isso engana-nos. Porque tu impregnas-te nas nossas mãos e deixas marcas que é preciso lavar. E é nisso que tu és boa: lavas sempre daí as tuas mãos. Não se pode confiar em ti. E o Serafim já percebeu isso.
Quanto a ti, Serafim, o teu problema é o inverso: olhamos para ti e és apetitoso. Essa camada de chocolate que te cobre a bolacha, esse charme que te encobre a pele, apetece. Apetece provar, dar uma dentada. Foi o que fez a Paulina. Mas depois, quando damos a primeira dentada e chegamos ao teu interior… vem a decepção. Esse teu interior é salobro, pobre. Não sabe a nada. E a Paulina já te deve ter experimentado, porque também ela já percebeu quem tu és.
E agora tirem esses ares de embasbacados da minha frente, tenho outros clientes ali na sala à minha espera e preciso comer mais bolachas e mais tangerinas. Sim, não façam essas caras, é o que faço para ganhar a vidinha.
Quanto a vós, o vosso problema está identificado e é fácil de resolver: diferenças irreconciliáveis de feitios. Vocês não podem ficar juntos. Não se esqueçam de passar na recepção, para pagar a consulta e também na igreja, para desmarcarem o casamento.
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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Histórias que crescem


Em quatro frases, contar uma história (quatro momentos: A, B, C, D). Depois, expandi-la, “preenchendo” com 3 novos elementos de texto entre cada frase, de forma a complementar essa história, sem lhe retirar o sentido original.

História inicial:
[A] Entrei no autocarro mas não reparei nele logo de imediato.
[B] Afinal, não é todos os dias que se vê alguém a estender-nos a mão no exacto momento em que nos vamos sentar.
[C] Foi então que compreendi o que andava ali a fazer aquela figurinha.
[D] Nem queria acreditar que se tratava de um “arrumador de lugares”, que tentava ganhar a vida dentro de um autocarro!

Versão expandida:
[A] Entrei no autocarro, mas não reparei nele logo de imediato. [A1] Tinha sido um inicio de dia aterrador. [A2] Tinha queimado a torrada, o café estava tão quente que ainda sentia a língua a arder, o endiabrado gato do meu vizinho conseguira outra vez pular a cerca e saltar-me para cima, rompendo-me as meias com as suas garras. [A3] Além disso, dois relatórios, ainda inacabados, para entregar impreterivelmente nessa manhã, olhavam-me de dentro da pasta sem qualquer contemplação, desafiando toda a minha capacidade de manter a calma. [A4] Foi por isso que nem dei pela presença de um vulto de gabardina, que teimava em permanecer no corredor do autocarro e se aproximava cada vez mais de mim.
[B] Afinal, não é todos os dias que se vê alguém a estender-nos a mão no exacto momento em que nos vamos sentar. [B1] A princípio, ignorei-o, mas depois tornou-se impossível: notei que à minha volta várias pessoas já se riam à socapa. [B2] Que quereria aquele homem de aspecto sinistro? Seria alguém a querer impor-me mais uns quantos folhetos publicitários? Mas agora já nem no autocarro podia estar em paz? [B3] O mais estranho é que eu não via quaisquer sinais de propaganda naquela mão, que apontava assustadoramente para mim. Apesar do espanto, pensei tirar partido da situação, apelar ao meu sentido de humor, agarrar-lhe a mão peluda e desatar a ler-lhe a sina. [B4] Tive vontade de rir histericamente da minha própria ideia, mas pareceu-me mais prudente não fazer nenhuma das duas, quer agarrar a mão dele, quer desmanchar-me a rir, como se mundo fosse acabar ali.
[C] Foi então que compreendi o que andava ali a fazer aquela figurinha. [C1] Tudo porque a pessoa sentada a meu lado me deu uma discreta cotovelada, apontando levemente com a cabeça na direcção da proeminente barriguinha do cavalheiro. [C2] Reparei numa pequena bolsa que trazia atada à cintura onde, com a mão livre, titilava ruidosamente diversas moedas que ali se encontravam. [C3] Percebi que aquele senhor tinha dado um novo fôlego à já satura profissão de “arrumador de automóveis”. [C4] E percebi também que aquele senhor procurava encontrar-me aquele que, para ele, seria o melhor lugar para me sentar. Nem preciso de vos dizer que ele contava ser recompensado por tão árdua tarefa.
[D] Nem queria acreditar que se tratava de um “arrumador de lugares”, que tentava ganhar a vida dentro de um autocarro!

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domingo, 29 de março de 2009

Silêncios com alma


A partir de três palavras que, em nossa opinião, nos definam, escolher duas e, conjugando-as com a palavra “camisola” (a propósito de uma camisola há muito abandonada na sala), escrever um pequeno texto.

Palavras escolhidas:
Silêncio
Alma

Gosto dos meus silêncios.
Gosto de ouvir o que têm para me dizer. Gosto de me deter sobre os seus sons.
É neles que a minha alma é mais verdadeira.
Os meus silêncios são ilhas de calor que apetece vestir e albergam minha voz.
São um caminhar de passos seguros que me levam para lá de mim, para lá da minha alma.
Os meus silêncios não são solidão, têm cores suaves, são aconchego, cheiram a camisolas quentinhas acabadas de tricotar, sabem a Verão, parecem o mar, são a Paz.
A minha Paz.
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quarta-feira, 25 de março de 2009

Lavar a alma


Escolher um local, em casa, onde habitualmente não permanecemos. Observar daí o mundo de um ponto de vista nunca antes percepcionado. Depois, escrever sobre a experiência.

Local escolhido: o (interior do) tanque da roupa. Lá dentro, imaginei-me uma das peças que usualmente o habitam

Texto:
Dentro de um tanque, vejo-me roupa suja, suja de todos os dias. Ouço à minha volta uma azáfama de higiene, um corre-corre de limpeza.
Sinto-me afogada em água que em breve será ritual de purificação, um baptizado que me devolverá ao mundo das coisas limpas.
Não estou sozinha e sei que sou apenas um pequeno grão acumulado ao longo de dias. Sou a manga de uma camisa, a perna de uma calça, o cós de uma saia, sou uma peúga, uma peça de roupa íntima. Em cada uma que sou, há nódoas de vergonha que tornam indistintas as muitas que julgo ser. Quando sair daqui voltarei a ter personalidade própria e, então, a blusa suja que sou agora, voltará a ser a mais bela peça de arte costurada que alguma vez terá pousado sobre um ombro ou sobre uma das outras companheiras que agora por aqui andam a boiar comigo.
Lá fora, o mundo espera-me sobre a forma de um estendal. Isto de pendurar roupa tem que se lhe diga e espero que quem vier tratar de mim saiba da arte. Vou ficar muito quietinha, deliciada, a sentir em mim o calorzinho do sol, muito esticadinha, para secar muito depressa.
Mas por agora estou aqui, dentro deste tanque, a fazer companhia a outras malcheirosas como eu. Atiram-nos para cima um pó perfumado – ouvi chamarem-lhe detergente! – e… atchim! ponho-me logo a espirrar, o nariz a queixar-se de alergia!
Vão bater-nos, esfregar-nos, passar-nos por água limpa, agora o amaciador, água limpa outra vez, agora torce, torce, bate outra vez sem piedade sobre a pedra frisada do tanque e…

Sinto a alma lavada!
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quinta-feira, 5 de março de 2009

Olhar o mundo


Escolhido um local, fora da sala de aula, para “permanecer” por algum tempo, olhar dali o mundo com uma postura que normalmente não seria habitual naquele local e circunstâncias.

Escrever a partir da frase imaginária “O mundo visto daqui”.

Texto:

De joelhos naquilo que parecia um parapeito de uma janela. As mãos firmemente agarradas nas grades que funcionam como uma cortina para a rua.
O mundo visto daqui é feio, mas não me assusta. Para fora, vêem-se edifícios velhos e sujos, mas, sobre eles, uma nesga de céu. Olho repetidamente para cima.

Como estou de joelhos, dir-se-ia que estou a rezar. Como olho para o alto, talvez esteja em busca de um sentido para a existência – a que alguns chamariam Deus.

Mas, curiosamente, é quando olho para baixo e encontro a meus pés um vaso com uma planta, suspenso nas mesmas grades onde continuam depostas as minhas mãos, que vejo que ali mora uma nascente de vida, ou seja, a esperança.

Sinto-me liberta da minha prisão.


(Nota: este texto é uma homenagem à Madalena, que começou hoje a aventura da vida)

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domingo, 1 de março de 2009

O espaço à minha volta


Vagueando pelo espaço circundante à sala e aula, com a percepção máxima dos cinco sentidos, anotar todas as sensações por eles alcançadas. Escrever um texto sobre a experiência

..................(saio para o hall, toco na aduela de uma porta)

É rugoso. Ouço um dossier que se fecha sobre uma mola ruidosa. Ouço passos. Ouço uma caneta que não é minha. Vejo a rua. Ouço um ruído de fundo de uma qualquer máquina que não identifico. Ouço uma porta a ranger.

Sinto frio e sinto medo.

.................(desloco-me para o exterior, fico no patamar da escada)

Vejo branco. Branco polvilhado de negro e castanho. Há madeiras porosas e pouco tratadas. Há uma parede áspera que alguém quis tratar com tinta de areia. Arranha. Continuo a ouvir um zumbido de uma máquina ininterrupta. Há à minha volta uma esfera de velho e antigo.

É a cidade envelhecida.

Sinto frio e sinto medo.

Sinto a aragem de uma janela aberta. Ouço o ruído. Será uma ventoinha? Há degraus que se precipitam á minha frente.

Sinto vertigens.

.................(volto à sala)

Recuo. Volto á sala e toco num quadro meio-esferovite, meio-madeira. Áspero. Também ele arranha.

.................(passo para a outra sala)

Passo à outra sala. Uma cortina preta cobre a janela onde devia haver luz. Talvez quem a colocou ali saiba que é noite, do outro lado só a escuridão. Toco a cortina. É leve e mais agradável ao toque do que pensei. Toco-lhe e ela esvoaça. Logo abaixo dela a janela é rematada com uma pedra cinzenta. Dura.
Apoio a mão sobre uma mesa de madeira para escrever. Vou agora senti-la.
É lisa, mas percebo-lhe os veios. Móvel de outros tempos, madeira a sério. É macia e agradável.

À minha volta branco, preto, castanho. Paredes, cortina, degraus, móveis.

.................(volto à sala de aula)

Volto à sala. Sento-me. Há luz. Finalmente saio da penumbra. Escuto as cores, olho os sons na rua, ouço a vontade de não largar a caneta.

Sinto vontade de escrever.

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sábado, 28 de fevereiro de 2009

De volta



Dou hoje início à postagem de uma nova série de textos nascidos de uma nova aventura pela Escrita Criativa. De novo numa sala de aula, novos colegas, o formador é um escritor. Tantas coisas boas juntas!

Aguardo-vos. Vão aparecendo e comentando.

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A carta



Entrou em casa com um pequeno papel azul e disse-se encartado. O momento era de comemoração. Saímos para jantar fora e foi ele que levou o carro.
Estava confiante e mostrou-se seguro. Conhece as regras e cumpre-as.
Julga que aquele ridículo pedaço de papel azulado o legitima por adulto. Não me ilude.
Eu sei que não é.
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A vida ao contrário


Veio por mail. Surpreendeu-me a ideia. Viver ao contrário.
E se pudesse ser assim?

“Eu quero viver a minha próxima vida ao contrário: começo morto e livro-me disso.
Depois acordo num lar para a terceira idade, sentindo-me melhor cada dia que passa.
A seguir sou expulso, por estar demasiadamente saudável.
Gozo a minha reforma e recebo a minha pensão de velhice.
Então, quando começo a trabalhar, recebo um relógio em ouro como presente logo no primeiro dia.
Trabalho 40 anos, até ser considerado demasiado novo para trabalhar.
Vou para o liceu e bebo álcool, vou a festas e sou promíscuo.
Depois vou para a escola primária, brinco e não tenho responsabilidades.
Transformo-me então num bebé e passo os últimos 9 meses a flutuar pacífica e luxuosamente, em condições equivalentes a um spa, com ar condicionado, serviço de quartos entregue por cabo, e depois...
Acabo num grande orgasmo!”

Ontem vi um filme, “O estranho caso de Benjamim Button”, que, de algum modo, transpõe para o cinema esta noção. Não é só isto, claro, é muito mais profundo, mas a ideia está lá.
Um filme para reflectir.
De David Fincher. Com (mais uma) magistral interpretação de Brad Pitt. Também Cate Blanchett. E com a Júlia Ormond.

Sublime. Um grande filme, que grande noite!
Saí da sala em silêncio. Às vezes, as palavras sobram.

Resumo: Benjamin Button tem um destino curioso e nasceu em circunstâncias pouco habituais. A sua vida é a estranha história de um homem que nasce com 80 anos e vai regredindo na idade. O filme conta o seu peculiar percurso e as atribulações da sua vida, desde 1918 até à actualidade, os seus amores, as suas alegrias e os seus dramas. E aquilo que consegue sobreviver à passagem do tempo.
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

E se cada letra fosse uma flor?


Foi há algum tempo. Eu andava numa fascinante descoberta pelo museu e jardins da Fundação de Serralves, absolutamente deslumbrada, como sempre, com cada pedaço de mundo novo que ia desfilando diante dos meus olhos, quando cheguei à Sala do Serviço Educativo. Num espaço, na altura, ocupado com uma maravilhosa exposição feita de jardins (portáteis) construídos por crianças de 81 escolas de todo o país, encontrei um tesouro. A toda a volta da sala, no alto de cada parede, bem junto ao tecto e em letras coloridas, uma deliciosa mensagem esperava por mim.

Eram horas de encerrar portas, mas isso não me inibiu. Lembro-me da minha alegria infantil a “roubar” aquele pedaço de magia, que escrevi num papel encontrado à pressa, enquanto a funcionária olhava de lado, ora para mim, ora para o relógio, num desacerto de quem não percebe uma emergência.

E eu a ser criança outra vez. E eu a ser feliz outra vez.

..................E SE CADA LETRA FOSSE UMA FLOR?

..................................A... a flor não mora cá
..................................B... brota do chão
..................................C... fica em botão
..................................D... cresce no dado
.............. ...................E... abre em segredo
........... ......................F... dou-lhe um tabefe
..................................G... fala baixinho
..................................H... já não há
...................................I... eu nunca vi
..................................J... cala a boca
..................................L... é cor de pele
..................................M... usa creme
..................................N... faz óó
..................................O... desfaz-se em pó
..................................P... ninguém vê
..................................Q... sabe porquê
........... ......................R... há quem lhe berre
............ .....................S... arrefece
............. ....................T... fica à mercê
..................................U... a olho nú
..................................V... diga você
..................................X... é como diz
..................................Z... foi a que eu fiz

Quero acreditar que ainda lá está à minha espera, à espera do dia em que eu voltar. Se passarem por lá, não deixem de me contar.
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Para que conste



Esta foi a mais bonita mensagem de ano novo que recebi. Veio da Dora.

“Que neste novo ano tenhas 2009 motivos para sorrir.
E que a nossa amizade seja um deles!
E se algum dia a luz da nossa amizade se apagar… que se lixe! Acende-se uma vela.
E se a vela se apagar… que se lixe! Somos amigos às escuras.
Porque a verdadeira amizade brilha por si mesma.”

Obrigada Dora!
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

É um ano novo


Pus uma camisola verde-esperança e passou num instante. É sempre assim: no fim fica o vazio de um desfecho que ficou aquém da expectativa.

Agora é cruzar os dedos e acreditar outra vez. Porque as passas, já se viu, não resultam.

P'ró ano há mais.
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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

HÁ NATAL



(Retirado da mensagem de Natal do Tio Escola)

Se tens tristeza, alegra-te!
O NATAL é alegria.
Se tens inimigos, reconcilia-te!
O NATAL é paz.
Se tens amigos, busca-os!
O NATAL é encontro.
Se tens pobres a teu lado, ajuda-os!
O NATAL é dávida.
Se tens soberba, sepulta-a!
O NATAL é humildade.

.................Se tens trevas, acende a lâmpada!
.................O NATAL é luz.
.................Se tens pecados, converte-te!
.................O NATAL é vida nova.
.................Se vives na mentira, reflecte!
.................O NATAL é verdade.
.................Se tens ódio, esquece-o!
.................O NATAL é amor.
.................Se tens fé, partilha-a!
.................O NATAL é Deus connosco.

A TODOS BOAS FESTAS E UM SANTO NATAL
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Que tens de teu?


Zangou-se com ele e veio-se embora.

Ele deixou-a ir e não tentou segurá-la. Doeu-lhe.

Ficou a pensar: se fosse definitivo, que tinha para trazer de lá?

Quando fechamos uma porta, que temos de verdadeiramente nosso para trazer connosco?
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A noite



Nada importa agora.
A noite. O silêncio. O dia é a noite, esta noite em que te estendes no meu silêncio.
O teu corpo nú. Tu.
A tua boca. A tua língua que me procura. Pele. Pele na pele.
Que importa agora?
O dia é a noite, esta noite que me grita. Silêncio, mas sons. Gemidos no silêncio. A noite. Plena.
O rosto sem ver. Mãos. As tuas mãos, os teus dedos. Urgências. Maiores.
Os sons. O silêncio.
Agora não importa. Só tu. Só isto. Nós. Os nossos corpos. Sem ver. A noite.
Somos pedaços de uma coisa maior.
Agora um pouco mais. Cheguei. Contigo. Tu também.
Antes o fulgor. Agora, a paz.
Em silêncio, ainda.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Regresso



Quase noite, mas ainda o cinzento do dia. Cinzento de chuva. Uma chuva que incomoda. Conduzo de regresso a casa. Casa. Seguro o volante com uma mão. A outra vagueia, distraída. Ajeita o cabelo, pousa no assento, na caixa de velocidades, passa pelo rosto, descansa momentaneamente na perna, desliza para a caixa outra vez e aí fica. A dança dos pés nos pedais não me é estranha, mas é como se dela não tivesse consciência. Como de nada do que me rodeia. Vejo sem ver a auto-estrada, um ziguezague á minha frente, as luzinhas vermelhas dos carros à minha frente, todos em movimentos iguais aos meus, mas todos a anteciparem-me. Regresso. Um nevoeiro cerrado a subir a serra. Um verde cinzento na natureza. Do verde bonito dos dias de sol, nada. O rádio a tocar, eu sem ouvir. Naninni? Talvez. A voz é rouca, soaria bem se eu a ouvisse. Não ouço.

Desde que te foste embora, não ouço. Não ouço, não sinto, não vejo. Regresso. Casa. Penso no tempo em que a minha casa era uma janela. Uma janela de ilusões. Mas tu foste embora e ficou o vazio. Incomparável.
Conduzo devagar. Um vagar desatento de quem não dá conta. A voz é agora masculina. “E é sempre a primeira vez, em cada regresso a casa”. Veloso. Faz-me lembrar-te. Por onde andas agora?

Eu sabia a cada vez que. Sempre que. Em todas as vezes que
- enviar
um friozinho, porque eu sabia que. Que podia ser a ultima. Que talvez já não viesses. Regresso. Às vezes demorava dias, semanas até. Às vezes era espontâneo, outras vezes um mero acaso. Mas sabia que podia ser a ultima. A ultima vez que. Enviar.
Outra voz masculina. Num inglês sensual, diz que precisa de mim esta noite. Rio-me histericamente ao pensar que não fala para mim. Que nunca ninguém assim para mim.

Avanço. Chove ainda. A estrada inclina-se e uma Beatriz Costa em madeira anuncia-me por onde passo. Uma subida agora e a portagem já ali à frente. Estou quase. Regresso.
Aprender. São assim agora os meus dias. Aprender a tua ausência. O livro da Margarida devolvido á prateleira depois de lido e tanto de mim ali. Uma ausência diária. Aprender. Recuperar a partir do que ficou, do que tenho. Definho e nem dou conta. Tanto de mim ali. Inexplicável.

Estou de regresso a casa.
Dizer-te só mais uma vez. Quando desceste do meu comboio, deixaste uma permanente saudade. Inesquecível.
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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Bolinho, bolinho, bolinho


E pronto.

Terminado este curso e antes de iniciar uma nova etapa, é altura de cumprir as promessas feitas.

Fernando, este post é para ti, em jeito de homenagem ao delicioso bolinho que fizeste para nós todas.

Meninas, confessem sem demoras: ficámos todas a babar por mais uma fatia, só mais uma. Por isso, em coro e bem alto, vamos aplaudir o talento do Fernando: ele merece!


BOLO DO FERNANDO

1 lata pequena de milho;
A mesma lata de açúcar;
A mesma lata de leite;
1/2 lata de óleo
9 colheres de sopa de farinha de milho;
1 colher de sopa de fermento;
3 ovos
50 gr. de coco ralado;
1 pitada de sal

Bater todos os ingredientes na liquidificadora.
Untar uma forma com manteiga, polvilhá-la com farinha, colocar a massa e levar ao forno durante 40 minutos a 200 graus.
Desenformar só depois de frio, sobre uma cama de coco, e polvilhar ainda com mais coco por cima.

Como podem ver, muito simples, ao alcance até de iniciados (o que não é o caso do Fernando!).

OBRIGADA, FERNANDO!

(e para quando nova surpresa?)
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Que palavras tens no teu cofre?


Ao longo do curso, no final de cada sessão cada um de nós escrevia num pequeno quadrado de papel uma qualquer palavra, escolhida por si ao acaso, que depositava numa caixa fechada, o nosso cofre. Na ultima aula, aberta a caixa, coube a cada um, aleatoriamente, algumas dessas palavras para, em 5 minutos, compor um texto a partir delas.

O meu texto foi surgindo sem outra preocupação que não fosse a de misturar livremente todas as palavras que quiseram vir ao meu encontro. O último parágrafo, intencionalmente, pretende somente juntar todas elas (nas suas diversas formas) numa única frase.

Palavras:
Infância
Imprevisível
Linhas
Esquecer
Escrita criativa
Libertação
Ausente

Texto:
Há escrita imprevisível, criativa, com linhas, fora de linhas. Há escrita ausente, escrita de paixão, capricho de vida. Há escrita que vem da infância. Pode-se escrever para esquecer ou por simples vontade de libertação.

Escreve-se para criar ou por desejo de liberdade, que pode ser de nascença, de infância. A escrita é paixão e viver a vida sem escrever, pode não ser viver.

Escreve-se para esquecer ou até para lembrar o que se havia esquecido. As linhas da escrita nunca são rectas e se o foram a escrita não foi de paixão e sem paixão não há vida. A criação é libertação e a escrita que nasce e vive a infância em liberdade é imprevisível.

Quem na infância se libertou e escreveu por linhas de paixão de forma imprevisível, certamente não esteve ausente e não se esqueceu da vida.

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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Post-it's inspirados que falam de nós




Ao longo do curso, no final de cada sessão, cada um de nós escreveu num post-it uma expressão escolhida a partir das inúmeras que haviam sido escritas nessa sessão. O post-it era depois colado numa parede, que se foi, assim, revelando um “mural” de inspiração.
Na ultima sessão, cada um escolheu um post-it e, em 10 minutos, propôs-se desenvolver um texto a partir da frase: “Escreveu … (texto do post-it) num post-it, colou-o… (indicar onde o colou) e virou costas”. Incapaz de me decidir por um único post-it, optei por seleccionar três, os que abaixo reproduzo.


Frases escolhidas:
“Um papel em branco! Vou colori-lo, seja com lápis de cor, canetas de feltro, ou simplesmente com as minhas palavras”

“Há palavras feitas para mastigar as ideias”

“Dia 15, em Lisboa, o sol nasce às 06:39”


Texto:
Acordou estremunhada. Passaram alguns minutos antes que tomasse consciência de onde estava. Depois soube. Levantou-se, espreguiçando-se. Fez o primeiro gesto da manhã, de todas as manhãs: ligou o rádio. Foi dominada por uma música lastimável e fez-se a mesma pergunta de sempre: como é que um locutor se senta aos comandos de uma rádio e se predispõe a acordar um país de gente melancólica com acordes tão bizarros? Felizmente, uma voz melodiosa anunciou de imediato: “Bom dia, tenha um muito bom dia. Hoje, dia 15, em Lisboa o sol nasce às 06:39…”. Não ouviu mais nada. Meu Deus, que precisão: 06:39! Estes meteorologistas são doidos! Houvesse tanto rigor nas contas do Orçamento de Estado e talvez o locutor não estivesse agora anunciar a mais que previsível demissão do Ministro das Finanças.
Tomou o seu duche, lavou os dentes, não esqueceu o creme hidratante espalhado por todo o corpo com gestos a roçar o sensual, olhou-se uma última vez ao espelho, gostou do que viu e mudou a expressão, contemplando-se com um olhar aprovador.
Ia precisamente a sair de casa quando olhou distraída para o puff comprado na véspera e, à falta de uma decisão sobre onde iria ele morar lá em casa, abandonado no hall. Só então reparou que uma folha de papel havia ali sido esquecida.
“Um papel em branco! Vou colori-lo, seja com lápis de cor, canetas de feltro, ou simplesmente com as minhas palavras”. Se bem o pensou, melhor o escreveu num post-it, colou-o na porta de entrada pela parte de fora e virou costas. Esqueceu nesse instante o pequeno almoço já por três vezes marcado, adiado e remarcado com o C. e nem a ameaça que ele lhe havia feito da ultima vez, que não voltaria a esperá-la e iria embora de vez se ela repetisse a gracinha, nem isso a fez assentar a cabeça.
É que ela sabia que há palavras feitas para mastigar as ideias e, por isso, naquele dia 15 em que Lisboa acordaria com os primeiros raios de sol às 06:39, dirigiu-se apressadamente à Baixa da cidade para, de uma vez por todas, fazer o que vinha a adiar há uma eternidade: inscrever-se num curso de Escrita Criativa.

Nota:
Este texto foi escrito na última sessão do curso e traduz o meu desejo que tivesse sido a primeira. Aqui se pretende, também, reencontrar o C., que abandonou o grupo a meio do curso e de quem nunca mais soubemos nada.
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quinta-feira, 31 de julho de 2008

A tua vida numa rifa



Iniciou-se a sessão rasgando papel. À mão, em pequenos fragmentos, sem qualquer preocupação de relevo que não fosse obter diversos exemplares de diferentes feitios. Depois, em cada pedaço foi escrita uma palavra, aquela que cada um entendeu que melhor definia o que o seu formato sugeria.

Conforme os diferentes efeitos, surgiram, entre outras:
- iate
- bilhete de autocarro
- bandeira;
- cabide;
- lua de papel
- gota d’água
- península Ibérica
- rifa

Saiu-se então para um pequeno passeio pedestre pela baixa da cidade, transportando no bolso um desses pedaços de papel. No destino, sob a azáfama de final de tarde na cidade e com o rio em fundo, em 10 minutos meditou-se sobre a ideia “quem és tu?”, e as reflexões foram anotadas em pequenas frases/interrogações.

O caminho de regresso foi feito com instruções precisas para escutar com atenção todos os sons em redor, registando-os e conjugando-os com “regressou…”

Fragmento de papel escolhido para viajar no bolso: uma rifa, devidamente enrolada, como as que se encontram nas quermesses das festas populares que ainda vai havendo nas aldeias.

De volta à sala, 10 minutos para escrever, relacionando “quem és tu?”, “regressou” e a palavra que espreita do bolso (rifa).

Texto:
No regresso, olhou a sua sombra. Fez a si mesma a pergunta que sempre a inquietava: quem era? Poderia saber quem era, apenas olhando a sua sombra?
Às vezes sentia-se um gigante, tão gigante que até se surpreendia. A sombra permitia-lhe o que o espelho lhe negava: o perfil. Perguntou-se para onde a levavam os seus passos naquele regresso. Sentia-se insegura, encurvada pela vida, mas ainda capaz do sonho. Capaz da vida. Que vida estaria contida na rifa que lhe coubera? E teria coragem de a desenrolar agora?
Em cada regresso perguntava-se se o sonho é companheiro do optimismo. Se tens garra porque não a agarras? Que te impede de voar?
Andou um pouco mais, sem saber se aquela necessidade de saltitar era mesmo real ou símbolo da sua inquietude.
Naquele regresso, uma sensação nova: a de olhar a imensidão e o silêncio do rio. Cruzou o arco e seguiu por caminhos proibidos. Descobriu uma agradável sensação ao experimentar emoções já vividas noutros regressos. A cada passo, o medo de cair, mas a certeza da música que ouvia dentro da sua cabeça dava-lhe confiança para continuar.
Não sabia se aquele regresso era igualmente uma ida, não tinha a certeza de estar a ir embora, mas ficar ali já não fazia sentido.
Com um último olhar para trás, e em passo acelerado e firme, tomou finalmente o caminho de regresso e rumou a oriente, porque sabia que de lá vinha o sol e lá saberia quem estava na ponta da sua sombra.
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terça-feira, 29 de julho de 2008

O painel da nossa imaginação




Parte da sessão foi preenchida a criar um enorme painel, construído por todos. Canetas coloridas em punho, a cada um foi dada liberdade para criar como melhor lhe apeteceu. O resultado está à vista: a H. desenhou uma árvore gigante, que outros complementaram. O P. delineou uma estrada que atravessou todo o painel, onde alguém acrescentou um túnel na ponta final, que por sua vez foi transformado noutras abstracções. O C. chegou tarde, mas não ficou ficou à margem e logo se juntou e deu o seu contributo. Foram deixados recados ao Cl, ausente. A S. andava de volta, a “espicaçar” aqui e ali.
Flores, frutos, palavras, desenhos, irreverências várias foram surgindo e compondo esta montra de nós.
Que grupo estupendo!
Que tarefa soberba!

No final, escreveu-se livremente sobre a experiência.

Texto:
De tudo, ficou uma certeza: a imaginação.
Uns divertiram-se a desenhar, outros a pintar, houve quem preferisse escrever ou simplesmente observar.
De tudo, ficou uma certeza: ninguém caiu num túnel de paredes escuras, sem luz. Alguns deram passos, outros viajaram de avião, outros, ainda, em pensamento.
Os ausentes não foram esquecidos e, mesmo quem apanhou o comboio a meio, não ficou parado na estação de partida.
Deram-se saltos, venceu-se a distância de um caminho, engoliu-se o tempo, lancharam-se palavras que caíram da cartilha, veio o pirilampo mágico, não faltou a chuva, fez-se uma salada de frutas com as maçãs de uma árvore plantada inicialmente, fizeram-se exclamações, colocaram-se interrogações, mas foram válidas todas as participações.
De tudo, uma certeza: gostei!
No desfecho, uma interrogação: que destino terá este nosso painel?

Nota: ficou para mim…claro!!!!



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terça-feira, 8 de julho de 2008

Há palavras...




A partir da expressão “há palavras feitas para”, construir frases. A partir daí, 5 minutos para um texto.

Há palavras feitas para sonhar;
Há palavras feitas para crescer;
Há palavras feitas para amadurecer;
Há palavras feitas para me situar em ti;
Há palavras feitas para amar;

Há palavras feitas para sonhar, amar, crescer, amadurecer.
Há palavras feitas para me situar em ti.
Mas também há palavras que não foram feitas ou que parecem nunca mais estar feitas, ou que parecem já feitas noutro tempo, onde nunca nada estava feito.
Há palavras feitas com vagar, com jeito, com fervor e sentimentos. Pois, há palavras que te definem!
Há palavras que eu ainda vou fazer, mas de todas as palavras já feitas ou mesmo de entre aquelas que tu ainda vais fazer para mim, prefiro as que foram feitas com amor.
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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Olha que dois!



Em grupo, lançar para a mesa nomes de partes/órgãos do corpo humano. 10 minutos para escrever um diálogo imaginário entre dois deles.

Órgãos escolhidos: coração/cérebro. Que têm para dizer um ao outro?

Coração – Olá, que fazes por aqui?
Cérebro – Não sei bem. Estava entediado, vim para aqui pensar.
Coração – Ah! Muito bem. Mas que grande inquietação é essa?
Cérebro – Nada, estava a pensar na minha importância para o corpo dos humanos.
Coração – Na tua importância?
Cérebro – Sim, o cérebro é fundamental, não te parece?
Coração – Sim, é verdade. Todos deviam ter um…
Cérebro – Vá, não sejas assim. Faz-me justiça!
Coração – Ora! A tua importância, a tua importância! Mente arrogante! Já reparaste que o mesmo posso dizer eu?
Cérebro – Tu?
Coração – Claro! O coração é o mecanismo central de qualquer corpo, humano ou não. Achas possível prescindir de mim?
Cérebro – Olha, não estou para te aturar com essa altivez. Não quero sair daqui deprimido.
Coração (de mansinho) – Posso lembrar-te que deprimido já tu estavas?
Cérebro – Pára com isso, coração sem alma! Diz-me tu porque andas aqui à deriva.
Coração (cabisbaixo) – Tinhas mesmo que perguntar?
Cérebro – Ahá, suspeito que andas tão desorientado como eu.
Coração (desolado) – Tens razão. A minha dona partiu-me. Entrou numa contenda com o outro humano que mora lá em casa e ele chamou-lhe “cabecinha tonta”!
Cérebro – hhuuuu (gemido gutural)
Coração (risse) – Picaste-te?
Cérebro – Não sejas parvo. Não sei de que te ris. Que eu saiba, ela ficou com o “coração partido”.
Coração (pesaroso) – Pois foi! Não volto lá para casa enquanto “ele” não revelar ter também um colega meu!
Cérebro – Pois, acho melhor. E que sugeres fazermos agora?
Coração – Não sei. Uma tonteira qualquer. Olha, vamos contar as estrelas?
Cérebro – Anda daí. Eu também tenho fome!
Coração – Já te contei porque vim aqui?
Cérebro – Já, mas eu não perguntei…
Coração – É mentira! Bolas, Cérebro, tu não tens coração!
Cérebro – Ih, ih, ih, ih, ih …
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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Que agitação!


Mote: o movimento

Em grupo. Num pequeno passeio pela Baixa, anotar todos os movimentos de que se tenha percepção, mas sem atender a qualquer som. Como se fossemos surdos. Fazer então um texto a partir da ideia: “alguém caminha velozmente quando…”

Alguns dos movimentos registados: carros que passam; pessoas em passos apressados; uma jarra que tomba numa montra; nuvens que se movem; outdoors eléctricos e semáforos que “caem”; malas em ombros femininos; brincos que abanam nas orelhas; braços que se agitam; bicicletas que rodam, eléctricos amarelos que passam.
Há uma imensidão de objectos que esvoaçam: folhas de árvores; bandeiras em janelas; toldos em montras; saias; cabelos, pássaros, echarpes; fumo de tabaco; a folha do papel onde escrevo.

Este texto privilegia e pretende explorar a ideia de movimento.

Estava decidido! Era hoje que ia apresentar a minha demissão daquele emprego ultrajante! Não, não voltaria a passar novamente por aquelas cruéis humilhações. Saltei do carro, bati com a porta, e, pela rua fora com o cabelo a esvoaçar e a bater levemente na écharpe que saltitava ao ritmo dos meus passos, não pensava em mais nada, nem via as pessoas que apressadamente se cruzavam comigo.
Sabia exactamente qual o momento que havia determinado a minha decisão: ao abrir a porta do café, avistei a bandeira da Associação Amigos do Pedal hasteada nessa noite que, em conjunto com aquela jarra virada a pino que enfeitava a montra no outro lado da rua, me fez perceber que tudo o que precisava era partir à aventura com uma mochila às costas no selim de uma bicicleta. Como alguém havia feito à jarra, iria virar a minha vida de pernas para o ar.
O vento fazia-se sentir e empurrava as nuvens, os toldos das montras abanavam, mas da cidade eu tinha só uma vaga impressão. Mal reparava nos outdoors eléctricos que caiam em repetidos movimentos ou nos brincos que ondulavam em cabeças de mulheres afirmativas que movimentavam o pescoço em tontas e animadas conversas alheias, não queria ter consciência de eléctricos amarelos e outros engenhos de uma vida antiga que iria agora deixar para trás de mim. Já quase corria, a direcção a seguir era uma certeza.
E foi nesse preciso instante que um jovem, puxando de um cigarro, soltou uma tal baforada de fumo que me cegou por instantes. Não vi o cair do semáforo, avancei (decidida, já vos disse, não disse?) e foi então que fui frontalmente atingida por um ciclista que saía, desastrado, da mesmíssima Associação que me havia feito decidir mudar o rumo à minha vida.
Em voo picado, fui projectada para o interior de uma agência de viagens que prometia concretizar sonhos em paragens longínquas, e foi assim que, mais depressa do que na realidade pretendia, vi ocorrer em breves minutos a tão ansiada mudança na minha vida ao ser arremessada para dentro de uma ambulância que arrancou, veloz, à procura do hospital mais próximo!
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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Cuidado com esse buraco!


Iniciando com “um dia de manhã, levanto-me, saio de casa, há um buraco no passeio, não o vejo e caio nele. No dia seguinte, saio de casa…”, 5 minutos para terminar o texto usando a mesma estrutura e imaginando o que aconteceu sempre que saí de casa até ao sétimo dia .

Um dia de manhã, levanto-me, saio de casa, há um buraco no passeio, não o vejo e caio nele.
No dia seguinte, saio de casa, vou distraída e dou um valente encontrão num poste de electricidade que ainda ontem lá não estava.
Ao terceiro dia, saio de casa, preparo-me para contornar o poste, mas… há outra vez um buraco e quase caio nele. Um cartaz gigante informa-me que tiveram início as obras para o gás natural. Sigo meu o caminho satisfeita porque porque vai ser cada vez mais agradável viver no meu bairro.
Ao quarto dia, saio de casa, espreito as obras, mas agora o cartaz diz que as obras são para a passagem do Metro!
Ao quinto dia, saio de casa e nem quero acreditar: os serviços secretos estão a construir um túnel para uma galeria subterrânea.
Ao sexto dia, saio de casa e os meus olhos arregalam-se de espanto: um dos pilares da nova ponte que vai ser construída vai ficar mesmo em frente da minha porta!
Ao sétimo dia, saio de casa e respiro de alívio: no lugar de um buraco que ali andava há uma semana, alguém plantou uma árvore.
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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Quantas janelas conheces?



Mote: a janela.

Em grupo, em jeito de brainstorming, atirar para a mesa palavras que descrevam tipos de janelas. Depois, individualmente, escolher seis delas e descrever o que se viu através dessas janelas. Fazer frases cruzando um tipo de janela com o que se viu através de outra. Escolher uma dessas frases e escrever durante 5 minutos.

Alguns exemplos de janelas:
Águas furtadas; escotilha; clarabóia; de vidro fosco; vitral; buraco da agulha; do Windows; do telemóvel; televisão; olhos; forno do fogão; de guilhotina;

Frases:
- Aproximei-me do vitral e vi árvores apressadas;
- Aproximei-me da janela do windows e vi a tua beleza;
- Olhei pelo buraco da agulha e vi a minha conta bancária;
- Da janela das águas furtadas, eu vi o blogue escreverescrever;
- Olhei pelos teus olhos e vi os meus textos;
- Pela janela dos teus olhos, eu vi o invisível;
- Olhei pelo buraco da agulha e vi a estação de partida;
- Aproximei-me do vitral e lá estava um e-mail do meu amor;
- Da janela do comboio eu vi a terra a meus pés.

Texto:
Pelo buraco da agulha, eu vi a estação de partida. Estava à minha frente e representava o início. Por ali eu ia sair para começar a minha nova vida. Tudo era novo e fresco e custava a acreditar que pudesse caber naquele minúsculo buraco de agulha. Mas era certo. Era agora. Ia ser.
Resolvi deixar para trás tudo o que não passasse naquele orifício insignificante. Seria pouco, muito pouco o que levaria comigo. Iria despojada de supérfluos e essa ideia animou-me.
Sabia que na minha nova vida só estaria presente o essencial, às vezes invisível aos olhos, até. Bastaria um raio de sol mas nuvens densas não teriam ali cabimento.
Olhei em frente. Tinha pressa em chegar ao outro lado e corri. Soube nesse preciso instante que o que antes me parecera uma fronteira, era agora passagem bastante para tudo o que precisava na minha partida. Percebi que o mais importante não era aquela estreita passagem, mas sim poder alcançar o lugar para onde me dirigia. Estação de chegada.

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terça-feira, 27 de maio de 2008

A Escada da vida

Retirar palavras/expressões do poema Escada Sem Corrimão de David Mourão Ferreira, cantado na voz de Camané e, a partir destas, escrever durante 10 minutos.

Expressões:
Escada em caracol; sem corrimão; a caminho do sol; chão; degraus altos; sustos, sobressaltos; medo de subir; sonhos; perigos em vão

Sem saber como, vi-me diante daquela Porta. A Casa era austera, parecia uma mansão antiga. As nuvens cinzentas, pesadas de água (de lágrimas?) em final de dia obscuro, não ajudavam a desfazer a paisagem assustadora que tinha à minha frente. Mas o que dominava era aquela Porta. Enorme, toda ela rangeu quando timidamente a empurrei para lá dos meus receios.
Vi-me dentro da Casa. À minha frente delineava-se a Escada. Altiva, a caminho do sol, de degraus altos, a roçar o infinito. Tive medo de subir, mas a ordem recebida era clara: “Tens que subir a Escada, porque subi-la é subires a tua vida”. Perguntei-me de novo qual o sentido de escalar a minha vida rumo ao alto, como se ambicionasse a eternidade, mas fiz o que me havia sido dito. Subi.
Avancei na esperança de que os meus pés caminhassem ainda no chão e toquei o corrimão. A Escada moveu-se, desenhou-se em caracol e, em sobressalto, compreendi: a minha vida era uma espiral, que urgia desenrolar. Coloquei um pé no primeiro degrau e avancei a mão. Segurei o vazio. O corrimão desaparecera e tudo fez sentido: teria que subir até ao limite da minha vida sem qualquer apoio.
Nem me dei ao trabalho de olhar para trás. Sabia agora que atrás de mim já não estava a Porta, só uma espessa parede. Olhei finalmente para cima e vi, como num sonho, um feixe de luz. Sabia que era por ali. Cheia de confiança, comecei a subir ao pé-coxinho, degrau a degrau e resolvi que não contaria aquela infinidade de degraus com números, antes resolvi transformá-los em letras, que depois juntaria em palavras e comecei então a cantarolar alegremente: a, b, c, d, e , f …

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Viajar na tua escrita

Em grupo. Numa folha em branco escrever uma qualquer palavra. Dobrar a folha de modo a ocultar a palavra e passar ao colega ao lado, que fará o mesmo. 5 minutos para um texto a partir da primeira e da ultima palavras deixadas na folha.

Palavras para o texto: escrever; viajar

Escrever viajando, escrever em viagem. Deixar-me transportar na escrita da tua viagem, viajar na tua escrita. Afinal que tens em ti, que me fazes viajar na tua escrita? Que me fazes escrever em viagens?
Lembro-me do tempo em que viajávamos e escrevíamos, numa anarquia de sentidos sem fim. Memórias de um tempo feliz, de palavras inacabadas, sempre, sempre em busca do próximo destino, da próxima paragem. Partida, chegada, partida, chegada. Sempre mais além, á procura de nós mesmos, numa escrita que fazíamos no outro.
Albergávamos em nós todas as poesias e todas as prosas, que nos levavam entre as margens onde pousávamos os pés e os pensamentos. Escrevíamos com sangue, com o coração, e eram as mãos, vagarosas no corpo um do outro, que usávamos como pincéis para pintar a razão. E a razão era viajar, viajar para escrever, escrever viajando.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Vamos fazer acrósticos?


A partir de palavras retiradas do poema Ode Marítima de Fernando Pessoa, fazer alguns acrósticos. Escolher um deles e fazer um texto. 10 minutos.

Acróstico: BarcosBaralhava As Rimas Com Outros Sentidos

Ouvia ruídos, vinham-lhe sons. Apurou os sentidos e esperou as ideias. Não. Não conseguia. Receou ter-se esgotado. O medo. Sempre o medo. De já não conseguir, de nunca mais conseguir. Não sabia dizer há quanto tempo estava ali à espera. O processo era sempre o mesmo: sentava-se a ouvir a música e aguardava as ideias, esperava que lhe chegassem em atropelos de inspiração.
Vinham cada vez menos. O filão já não era o mesmo. O medo. Sempre o medo. Baralhava As Rimas Com Outros Sentidos. Às tantas já não sabia quem era. Pensou: “E então? E se tiver que ser? E se nunca mais for capaz?”
Rodou o corpo, descruzou as pernas. Ficou muito quietinha. Esperou.
E de repente…
É isso! Acrósticos. Faria acrósticos! A partir de inesperadas palavras faria inspiradas frases que se conjugariam. É isso! Havia de conseguir!
Espera… palavras! Onde buscá-las? Como escolhê-las? Onde tinha os dicionários? Os livros de criança? Em livros infantis há sempre tantas palavras bonitas que cheiram a flores frescas acabadas de colher, a castelos de histórias encantadas, a arco-íris que começam no lado esquerdo da floresta e acabam na margem direita do rio, em barcos vindos de… Barcos!
Boa!
Endireitou-se e começou a escrever.
"Boémios Amores Recordados Como Orgias Suaves…,
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sexta-feira, 9 de maio de 2008

A que sabe a lua?


Retirar ao acaso excertos de livros vários e, em 10 minutos, fazer um texto a partir deles.

Livros e frases:
- Código do IRS e IRC – “Capítulo VIII - Garantias do contribuintes – artº 128: Reclamações e Impugnações – nº 1 – Os sujeitos passivos de IRC, os seus representantes e as pessoas solidária ou subsidiariamente responsáveis pelo pagamento do imposto podem reclamar ou impugnar a respectiva liquidação”
- Poemas, de Fernando Pessoa – “Não quero intervalos no mundo (…) quero que os corpos físicos sejam uns dos outros como as almas”
- A que sabe a lua? de Michael Grejniec – “Vista lá de cima, a lua estava mais próxima, mas a tartaruga ainda não podia tocá-la. “Sobe para as minhas costas, talvez cheguemos à lua”. A lua pensou que se tratava de um jogo e, à medida que o elefante se ia aproximando, afastou-se um pouco. Como o elefante não pôde tocar a lua, chamou a girafa”
- Folheto de propaganda política – “Medidas urgentes para a Câmara de Lisboa”
- Novo Testamento – “Então Paulo estendeu a mão em sua defesa e respondeu: “Tenho-me por feliz, Ó Rei Agripa, de que perante ti me haja hoje de defender de todas as coisas de que sou acusado perante os judeus”
- Guia Turístico de Nova Iorque – “Loja Strand Book Story, livros em 2ª mão – Os apaixonados pelos livros ou inclusivamente quem apenas leu um ou dois não devem deixar de visitar esta loja com exemplares em 2ª mão. A funcionar desde 1927, os imponentes corredores estão cheios de livros, quase dois milhões.”
- Resumo do Código para o Exame de Condução – “Sinais verticais – dentro das localidades ou regiões montanhosas, a distância entre a extremidade do sinal mais próximo da faixa de rodagem e a vertical do limite desta, não será inferior a 50 cm, salvo casos excepcionais de absoluta impossibilidade.”
- Guia de Compras dos Vinhos Portugueses – “Pedro e Inês, Dão Tinto 2004 – Feito com baga e alfrocheiro, tem muita especiaria no aroma, fruto elegante e fresco. Na boca mostra um estilo algo diferente do habitual, mais estruturado com bons taninos, final longo, fresco e apimentado.

Texto :
Pedro disse então a Inês:
- Sobe para as minhas costas, talvez cheguemos à Lua.
Inês assim fez e espreitou o outro lado do muro.
- Que vês?
- Campos de Dão Tinto de 2004.
- Como são?
- São feitos com baga e alfrocheiro, têm muita especiaria no aroma, frutos elegantes e frescos. Posso quase pressentir que na boca terão um estilo algo diferente do habitual, mais estruturado com taninos e um final longo e apimentado.
- Tens a certeza?
- Sim, não te esqueças que estes campos resultam assim porque dentro das localidades e nas regiões montanhosas a distância entre a extremidade da parreira mais próxima da faixa dos tractores de colheita e o seu limite não poderá ser nunca inferior a 50 cm, salvo em casos excepcionais ou de absoluta impossibilidade.
- Mas porquê?
- Porque não se querem intervalos no mundo, pretende-se com isto que os corpos físicos sejam uns dos outros como as almas!
- Que mais vês?
- Um cartaz gigante que anuncia e promete medidas urgentes para a Câmara de Lisboa. Tem um título descomunal, mas o texto é em letras miudinhas….
- Mas consegues ver o que diz?
- Sim, fala de um capítulo VIII e das garantias dos contribuintes. Parece que o artigo 128 se refere às reclamações e impugnações.
- Se calhar é por isso que está em letras miudinhas. Parece-me coisa importante. Ajeita os óculos, tu consegues lê-lo, tenho a certeza!
- Sim, consigo. Diz: “Os sujeitos passivos de IRC, os seus representantes e as pessoas solidária ou subsidiariamente responsáveis pelo pagamento do imposto podem reclamar ou impugnar a respectiva liquidação”
- Tem mais alguma coisa?
- Por cima alguém escreveu: "Tenho-me por feliz, Sr. Presidente da Câmara, de que perante si me haja hoje defender de todas as coisas de que me querem acusar perante esses judeus".
- Esquece isso. Vamos seguir o trajecto da Lua.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Abracadabra


Depois de observar 10 chaves diferentes, contar uma história a partir delas

Dizia-se igual às outras, em ímpetos de falsa modéstia, mas poucos acreditavam. Era caprichosa, vaidosa, birrenta e insuportável. Bastava uma rajada de vento escapar pela porta que abria e amuava. Bastava quem a transportava esquecê-la na mesa do café para se revelar todo o seu mau humor. Emperrava na porta e nada a fazia funcionar.
Sentia-se a Rainha das Chaves, mas escondia um profundo desgosto. Gostava de ter sido uma portentosa chave de uma porta de um castelo encantado e ser ela o objecto que permitisse ao seu dono salvar uma princesa em apuros. Não podia com a ideia da fraca importância que os humanos davam à sua função, pois julgava que sem ela e outras como ela, o mundo não seria o mesmo. Uma chave não é isenta de importância. Com ela se pode abrir um sonho, o paraíso, um coração, um arco-íris, a porta do céu, o fogo, o sol e a lua, o mar, um carrossel de ilusões, um mundo de fantasia, ou simplesmente uma ideia.
Ou pelo menos assim pensava. Em vez disso, odiava saber que a tinham prendido àquele banal porta-chaves onde nem faltava uma identificação da porta a que pertencia, não fosse acontecer confundirem-na, porque no fundo sabia-se tão igual ás outras que nada a distinguia.
Ser diferente era o seu sonho e a consciência da sua pequeneza, ignorada no fundo de uma mala, desesperava-a. Logo ela, que tantas histórias tinha para contar de quantas portas abrira. Acaso alguém algum dia lhe dissera “D. Chave, conte-me quanto viu”? Na próxima vez que a usassem ficaria tão hirta, tão hirta que quem a forçasse a partiria e talvez pudesse finalmente descansar no cemitério das chaves. Oh, terrível pensamento este para quem um dia se julgara a Rainha das Chaves.

sábado, 26 de abril de 2008

Palavras soltas


A partir da premissa dada (em destaque), fazer um texto

Gosto das palavras soltas, livres, sonoras, sem sentido, irreverentes, musicais, gritantes, clandestinas
Essas palavras são coloridos no cinzento da vida
Então atiro-as sobre a mesa, o chão, a cama, os livros, a minha cabeça
Recolho as letras uma por uma, guardo-as numa caixinha prateada que fecho com chave, embrulho-a em cetim violeta e agito com fervor
Pouco importa como elas se vão entender lá dentro porque eu sei que, quando abrir outra vez a caixinha, vou encontrar uma multidão de letras a cantar, a declamar, a saltitar, a sorrir ou simplesmente a conversar
O que fica é a certeza de que as novas palavras que dali vão resultar são fecundas e plenas e me vão fazer sentir completa