segunda-feira, 18 de maio de 2009

Correntes quebradas


Em escrita automática (processo de escrita contínua, sem interrupções, emendas ou retrocessos), um texto iniciado por: "A corrente do relógio partiu-se".

A corrente do relógio partiu-se. Ele sabia que se tratava de um sinal. Olhou em volta. Não encontrou o tempo. Decidiu avançar assim mesmo. Sabia que não havia volta. Algures haveria de encontrar outro relógio. O pior era o tempo, o tempo que não voltava. Sabia que o tempo não avançava, não envelhecia, quem envelhecia era ele. O tempo é sempre igual, as estações sucedem-se, o Outono precede o Inverno e outro tanto acontece com a Primavera e o Verão. Quem envelhecia era ele, esmagado por aquele tempo, por aquele relógio e agora até por aquela corrente que se partira. Fugia-lhe o tempo.

Seguiu em frente. Em algum ponto do caminho descobriria uma relojoaria, compraria outro relógio, compraria outra corrente, talvez encontrasse outro eu, talvez pudesse ser outra pessoa, com outro relógio no bolso se encontrasse outra corrente, ou com outro relógio no pulso, se isso não acontecesse. Mas sabia que não podia comprar o tempo.
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2 comentários:

Pedro Lopes disse...

no tempo em que viu a corrente do relógio partir-se sobrou-lhe o tempo de perceber que não tinha mais tempo

Andréia souto disse...

O tempo ... lindo como todo o seu blog...Postei um texto, convidando meus seguidores a visitarem o seu espaço, lendo e escrevendo.Maravilhosa experiência.